Imagine um cenário onde todas as suas necessidades físicas básicas fossem atendidas. Você tem abrigo, comida balanceada no horário correto, roupas limpas e higiene impecável. No papel, a sobrevivência estaria garantida, certo?

Na década de 1940, o psicanalista austro-húngaro René Spitz documentou uma realidade que chocou a medicina e a psicologia. Ele acompanhou bebês em instituições e orfanatos europeus. Essas crianças eram cuidadas por freiras e enfermeiras que seguiam protocolos de higiene extremamente rígidos. Os bebês eram perfeitamente alimentados e limpos, mas, devido à sobrecarga de trabalho e às diretrizes da época, havia uma regra implícita: não havia tempo nem espaço para o toque, para o colo, para o olho no olho ou para o aconchego.

O resultado foi devastador. Sem o calor do afeto, os bebês começaram a adoecer silenciosamente. Eles paravam de sorrir, entravam em um estado de profunda apatia (que Spitz chamou de depressão anaclítica) e, mesmo sem nenhuma doença física aparente, muitos simplesmente se entregavam à morte. O diagnóstico? Marasmo. Eles morreram de solidão. Morreram pela ausência de toque.

A Libido e o "Outro" na Psicanálise

Para a psicanálise, esse experimento trágico evidencia uma verdade incontornável: o afeto é uma condição vital de sobrevivência. Nós não nascemos humanos por completo; nós nos tornamos humanos através do olhar do outro. É o cuidador que, ao ninar, falar e dar sentido ao choro do bebê, introduz essa criança no mundo da linguagem e do desejo.

Quando falta esse contorno afetivo primitivo, abre-se um vazio. E é exatamente esse vazio que, muitas vezes, levamos na bagagem para a nossa vida adulta.

A Delegacia Afetiva: "Por favor, me diga que você me ama"

Muitos de nós, ao crescer, passamos a viver no que podemos chamar de delegacia afetiva. O que isso significa? Significa que passamos a vida adulta "autuando", cobrando e exigindo que nossos parceiros, amigos ou familiares preencham aquele buraco antigo que ficou lá atrás.

       Buscamos desesperadamente sermos amados pelo outro;

       Colocamos nas costas do parceiro a obrigação de curar feridas que ele sequer abriu;

       Tornamo-nos reféns da eterna dúvida: "Será que ele me ama de verdade? Será que amanhã ainda vai me querer?"

Essa busca incessante gera uma grande ilusão. A verdade clínica que a psicanálise nos revela é dura, mas libertadora: nós nunca teremos a certeza absoluta sobre o sentimento do outro. O sentimento do outro pertence a ele, é mutável, inacessível em sua totalidade e escapa ao nosso controle. Viver tentando garantir ou controlar o amor alheio é uma receita infalível para a ansiedade e para a neurose.

O Adulto Autoconsciente e a Certeza do Próprio Sentimento

Se o sentimento do outro é uma incógnita, onde podemos encontrar terra firme? Em nós mesmos.

O adulto que trilha o caminho da autoconsciência e da análise começa a deslocar o foco. Ele percebe que, embora não possa controlar se é amado, ele tem controle absoluto sobre a sua própria habilidade de amar.

A maior segurança que um adulto pode ter não é a garantia do amor do outro, mas sim a certeza dos seus próprios sentimentos.

Quando você se torna consciente de si, você sabe o que sente. Você sabe da sua capacidade de ser generoso, de se entregar e de cuidar. A sua habilidade de amar torna-se um pilar interno que ninguém pode lhe tirar. Você deixa de ser um pedinte de afeto para se tornar um sujeito ativo, que escolhe amar.

Acolhendo a Criança Interna: O AutoAmor como Limite e Cura

Para sair da "delegacia afetiva" e parar de projetar nossas carências nas relações, precisamos fazer uma viagem de volta para casa. Aquela criança que não recebeu o olhar necessário na infância — ou que sentiu que o afeto recebido era condicional — ainda vive dentro de nós. Ela chora toda vez que nos sentimos rejeitados ou ignorados pelo parceiro.

O papel do adulto consciente é acolher essa criança interna.

Não espere que o mundo exterior faça o trabalho que agora é seu. Quando aquela angústia antiga bater, respire fundo e converse com a sua própria história:

1.     Reconheça a dor: "Eu entendo que você está com medo de ser abandonada agora."

2.     Assuma a responsabilidade: "Mas eu sou o adulto aqui hoje. Eu cuido de você. Eu não vou deixar você desamparada."

O Limite do Autoamor

É vital destacar que esse amor-próprio não deve ser confundido com um narcisismo egoísta ou isolador. Devemos nos amar dentro de um limite saudável: o limite que nos protege de abusos e nos dá dignidade, mas que não nos fecha para o mundo. O autoamor saudável serve para nos estruturar, nos tornando fortes o suficiente para que possamos, finalmente, amar o outro sem exigir que ele nos salve de nós mesmos.

Se os bebês de René Spitz nos ensinaram que o afeto é vida, a psicanálise nos mostra que, na vida adulta, a fonte mais segura desse alimento precisa começar a jorrar de dentro de nós.