Conflitos no relacionamento: quando a conversa vira uma disputa para ter razão

Conflitos no relacionamento. Quando a conversa vira uma disputa para ter razão. Casal sentado à mesa, em uma pausa de uma conversa séria, com luz natural e tons suaves. Assinatura: Psicanalista Alexandre Viana.

NESTA LEITURA

Ir para comentários ↓

Psicanalista Alexandre Viana
Bach Foundation Registered Practitioner (BFRP)

Uma pessoa diz: “Sinto que você não me escuta”. A outra responde: “Mas eu faço tudo por nós”. Em poucos minutos, a conversa deixa de tratar do que está faltando e se transforma em um inventário de sacrifícios, erros e dívidas. Cada um reúne provas de sua dedicação. Ao final, ambos falaram muito e nenhum se sentiu compreendido.

Essa cena pode acontecer mesmo em relações nas quais existe amor. O afeto não impede que o casal construa maneiras de se defender que, com o tempo, dificultam a intimidade. Às vezes, aquilo que protege cada um de se sentir ferido também impede que os dois se encontrem.

Sob a ótica psicanalítica, vale investigar o que está em jogo quando uma queixa é recebida como ataque, uma diferença parece rejeição e reconhecer um erro adquire o peso de uma derrota.

O que se escuta por trás de uma queixa

“Você tem ficado distante” pode ser uma tentativa de falar sobre solidão. Mas quem ouve pode receber outra mensagem: “Você é uma pessoa insuficiente”. A resposta passa a se dirigir a essa acusação percebida, sem alcançar o sofrimento que motivou a conversa.

Isso não significa que toda queixa seja formulada de maneira cuidadosa. Há cobranças agressivas, ironias e generalizações que efetivamente machucam. Ainda assim, é útil distinguir o que foi dito, como foi dito e o significado que aquilo assumiu para quem ouviu.

Em O ego e os mecanismos de defesa, Anna Freud (1936/1966) sistematiza modos pelos quais o ego procura se proteger da angústia e de conflitos. A partir desse referencial, podemos pensar que certas reações em uma discussão protegem a pessoa de sentimentos difíceis de reconhecer: vergonha, dependência, desamparo, medo de falhar. Quando admitir uma falha ameaça o valor que alguém atribui a si mesmo, até um pedido específico pode ser vivido como uma condenação inteira.

O espaço para conversar diminui. Em vez de perguntar o que aconteceu, cada um se ocupa de provar quem é o culpado.

O passado pode participar de uma discussão presente

Cada pessoa chega à relação com uma história de como aprendeu a pedir, esperar, confiar e se proteger. Essas experiências podem influenciar o sentido atribuído aos acontecimentos atuais, muitas vezes sem que isso seja percebido.

Quem precisou insistir muito para receber atenção pode viver um adiamento como sinal de que novamente não importa. Quem cresceu sob críticas constantes pode ouvir um pedido como mais uma tentativa de controle. São possibilidades de compreensão, e não explicações prontas para qualquer casal.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud (1914/2010) examina como experiências e conflitos podem reaparecer em atos e relações, em vez de serem apenas lembrados. Uma contribuição dessa perspectiva é investigar modos de se relacionar que se repetem apesar do sofrimento que produzem. Na vida a dois, essa perspectiva permite perguntar se uma discussão atual também está mobilizando expectativas e defesas construídas em outros vínculos.

Kernberg (1995/1998), ao estudar as relações amorosas, investiga como vínculos internalizados do passado participam das interações conscientes e inconscientes do casal. Isso oferece uma base teórica para examinar essas repetições sem reduzir cada parceiro a um papel fixo.

Entretanto, o passado não explica tudo. Uma pessoa pode sentir abandono porque existe negligência no presente. Pode se sentir controlada porque sua autonomia está sendo desrespeitada. Reduzir qualquer incômodo a uma ferida infantil seria uma maneira de deixar de examinar a relação real.

Quando a defesa de um intensifica a defesa do outro

Em alguns casais, uma pessoa aumenta a cobrança porque sente distância. A outra se afasta porque se sente pressionada. O afastamento aumenta a cobrança; a cobrança amplia o afastamento.

Cada um passa a considerar sua atitude uma consequência inevitável do comportamento alheio: “Só insisto porque você foge”; “Só me afasto porque você não para”. Assim, a sequência se repete e parece não haver lugar para uma escolha diferente.

Reconhecer essa dinâmica ajuda a examinar a própria participação. Quem cobra pode precisar formular o pedido sem humilhar. Quem se afasta pode precisar dizer que necessita de uma pausa e combinar quando retomará a conversa. Há diferença entre interromper uma discussão para conseguir pensar e usar o silêncio para punir ou evitar indefinidamente uma questão.

Isso não implica que ambos tenham a mesma responsabilidade. A participação de cada um precisa ser examinada pelos atos concretos e por suas consequências. A ideia de que “os dois contribuem” não pode servir para diluir a responsabilidade de quem intimida, agride ou controla.

A expectativa de ser compreendido sem precisar falar

Uma expectativa frequente na vida amorosa é a de que o outro deveria perceber espontaneamente o que precisamos. Ter de pedir pode parecer uma prova de que o cuidado perdeu o valor: “Se eu preciso explicar, então não é de verdade”.

Existe algo compreensível nesse desejo de ser reconhecido. O problema começa quando ele se transforma em exigência de adivinhação. O parceiro passa a ser avaliado por expectativas que nunca foram claramente compartilhadas.

Dizer o que se deseja envolve exposição. Pedir carinho revela uma necessidade. Falar de ciúme pode revelar insegurança. Admitir solidão pode trazer o medo de descobrir que o outro não está disposto a se aproximar. Por isso, às vezes é mais fácil acusar do que pedir.

Transformar “você nunca se importa comigo” em “tenho sentido falta de tempo juntos e gostaria de conversar sobre isso” não garante acolhimento. Permite, porém, apresentar uma experiência e um pedido que podem ser discutidos. Também torna mais visível a disposição — ou a indisposição — do outro para responder.

Amar alguém inclui reconhecer sua diferença

O vínculo amoroso reúne pessoas que não desejam, pensam ou sentem da mesma maneira. Essa diferença pode despertar curiosidade, mas também frustração: o outro não confirma sempre nossas expectativas e não está disponível a todo momento.

Em psicanálise, o reconhecimento da alteridade diz respeito a admitir essa existência própria do outro. Ele possui desejos, limites e uma vida psíquica que não se reduzem ao lugar que ocupa para nós.

Na prática, isso exige distinguir uma diferença tolerável de uma quebra de compromisso. Querer algum tempo sozinho não equivale necessariamente a rejeitar o casal. Ter interesses distintos não configura, por si só, falta de amor. Por outro lado, invocar a própria individualidade não dispensa ninguém de cumprir acordos, dividir responsabilidades e considerar o impacto de suas escolhas.

A convivência precisa dar lugar tanto ao vínculo quanto à singularidade de cada um. Quando apenas uma pessoa pode desejar, discordar ou estabelecer limites, esse espaço fica comprometido.

Reparar exige mais do que encerrar a briga

Há pedidos de desculpas feitos para recuperar rapidamente a tranquilidade, sem reconhecer o que aconteceu. “Desculpa se você se ofendeu” pode deixar intacta a ideia de que o problema está apenas na sensibilidade de quem se machucou.

Em Amor, culpa e reparação, Melanie Klein (1937) relaciona o impulso reparador ao amor e à preocupação com o dano causado ao outro. Aplicada à reflexão sobre o casal, essa noção ajuda a pensar uma responsabilidade que vai além de encerrar o desconforto da briga.

Reparar envolve reconhecer uma conduta e seu efeito: “Eu ridicularizei o que você estava tentando me dizer”. A partir daí, é possível discutir o que precisa mudar. A reparação ganha consistência quando aparece nas atitudes posteriores, sobretudo nas situações em que o mesmo conflito poderia se repetir.

Também é necessário tolerar que a confiança tenha seu próprio tempo. Quem pede desculpas não pode exigir que o outro deixe imediatamente de sentir dor. Quem foi ferido, por sua vez, precisa poder avaliar se há mudança suficiente para continuar investindo na relação.

O que a escuta psicanalítica pode ajudar a investigar

A escuta psicanalítica oferece um espaço para examinar o que se repete, o que é difícil de dizer e o que cada pessoa espera obter ou evitar em seus vínculos. O sentido de uma reação precisa ser construído a partir de sua história e de sua experiência, em vez de ser imposto por uma fórmula.

Algumas perguntas podem abrir essa reflexão: o que acontece comigo quando recebo uma crítica? Consigo reconhecer um erro sem sentir que perdi todo o meu valor? Tenho dito o que desejo ou espero que o outro descubra? Que atitudes mantenho mesmo percebendo que elas afastam a pessoa de quem quero me aproximar?

Essas perguntas não devem virar instrumentos para analisar ou diagnosticar o parceiro durante uma discussão. Chamar o outro de “narcisista”, “projetivo” ou “imaturo” pode apenas dar uma aparência técnica à desqualificação.

Compreender o vínculo também pode levar ao reconhecimento de seus limites. Medo, coerção, humilhação e violência exigem atenção à proteção e à possibilidade real de escolha. Não cabe tratar essas situações apenas como dificuldades de comunicação, nem presumir que a continuidade da relação seja sempre o melhor desfecho.

Uma conversa começa a mudar quando existe espaço para conhecer a experiência do outro e responder pelo que se faz. Isso inclui escutar uma queixa, formular um pedido, reconhecer uma diferença e sustentar uma mudança concreta. É nesse trabalho cotidiano que o casal pode descobrir se ainda há condições de construir uma relação na qual os dois tenham lugar.

Referências bibliográficas

FREUD, Anna. The ego and the mechanisms of defence. London: Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1966. Trabalho original publicado em 1936. Catálogo da Routledge: https://www.routledge.com/The-Ego-and-the-Mechanisms-of-Defence/Freud/p/book/9781855750388.

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911–1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 193–209. Catálogo da Companhia das Letras: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535916140/.

KERNBERG, Otto F. Love relations: normality and pathology. New Haven: Yale University Press, 1998. Publicação original de 1995; referência à edição em brochura de 1998. Catálogo da Yale University Press: https://yalebooks.yale.edu/book/9780300074352/love-relations/.

KLEIN, Melanie. Love, guilt and reparation (1937). In: KLEIN, Melanie. Love, guilt and reparation and other works, 1921–1945. London: Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1975. (The Writings of Melanie Klein, v. 1). Sumário no Melanie Klein Trust: https://melanie-klein-trust.org.uk/resources/love-guilt-and-reparation/.

As cenas e reflexões práticas deste artigo são aplicações dos referenciais indicados, não transcrições das obras nem diagnósticos de pessoas ou casais.

A palavra também é sua.

Compartilhe sua reflexão. Os comentários passam por moderação antes de aparecer. Evite publicar dados pessoais ou informações clínicas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CONTINUE A LEITURA