Quando a realidade contraria nossas certezas

Quando a realidade contraria nossas certezas. Convicção, verdade e autoengano. Mulher junto à janela, em atitude de reflexão. Assinatura: Psicanalista Alexandre Viana.

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O que a psicanálise nos ensina sobre convicção, verdade e autoengano

Uma conversa termina, mas a discussão continua dentro de nós. Repassamos as palavras, organizamos argumentos e encontramos novas provas de que estávamos certos. Às vezes, procuramos alguém que confirme nossa versão. O que parecia uma tentativa de compreender o ocorrido vai se tornando uma defesa do lugar que ocupamos naquela história.

Ter uma convicção pode nos orientar. O problema começa quando precisamos preservá-la a qualquer custo.

Em A Revolta de Atlas, Ayn Rand afirma que cabe à própria mente julgar a verdade e que, diante da discordância, a realidade constitui a instância final de recurso. A ideia valoriza a responsabilidade de pensar por conta própria: a aprovação dos outros não torna uma afirmação verdadeira, assim como a discordância não a torna falsa.

A psicanálise acrescenta uma dificuldade a essa discussão: a mente com a qual julgamos também é atravessada por conflitos que não conhecemos inteiramente. Podemos raciocinar com precisão e, ainda assim, organizar uma explicação para evitar algo que nos custa reconhecer.

A certeza também pode cumprir uma função de proteção

Nem toda certeza é defensiva. Muitas resultam de observação cuidadosa, experiência e argumentos consistentes. Mas algumas convicções permanecem rígidas porque sustentam uma imagem de nós mesmos.

Uma pessoa pode afirmar que todos os seus relacionamentos terminaram por ingratidão. Talvez tenha sofrido injustiças reais. Entretanto, se essa explicação impede qualquer exame de suas escolhas, exigências e atitudes, ela também pode protegê-la de reconhecer a própria participação nos conflitos.

Outra pessoa diz que precisa controlar tudo porque ninguém é confiável. Pode ter vivido experiências concretas de abandono ou desorganização. Ainda assim, seu controle talvez contribua para afastar os outros, reforçando a impressão de que só pode contar consigo mesma.

Esses exemplos não autorizam um diagnóstico. Mostram uma possibilidade de leitura: uma explicação pode conter fatos verdadeiros e, ao mesmo tempo, deixar de fora aquilo que ameaça quem a sustenta.

O que sentimos e o que aconteceu

Uma mensagem sem resposta pode ser vivida como desprezo. Um limite pode parecer rejeição. Uma discordância pode ser experimentada como humilhação.

O sofrimento produzido por essas experiências é real. Mas sua intensidade, por si só, não comprova a intenção atribuída ao outro.

Entre o acontecimento e a conclusão existe uma interpretação. Nela podem participar lembranças, expectativas, fantasias e experiências anteriores. Quem aprendeu a esperar abandono pode reconhecer seus sinais muito antes de haver elementos suficientes para concluir que está sendo abandonado.

Também é possível que haja desprezo, rejeição ou violência de fato. Investigar a participação da história pessoal na maneira de perceber uma situação não deve servir para encobrir o comportamento de quem agride. O trabalho exige examinar tanto as condições externas quanto os sentidos que elas adquirem para aquela pessoa.

Uma pergunta útil seria: o que aconteceu, o que senti e o que concluí a partir disso? Separar esses três planos pode abrir espaço onde antes havia apenas uma sentença.

O princípio de realidade e o limite do desejo

Em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico, de 1911, Freud descreve a passagem para um funcionamento que considera as condições do mundo externo, mesmo quando elas são desagradáveis. O princípio de realidade permite buscar satisfação levando em conta limites, consequências e adiamentos.

Isso não significa abandonar o desejo ou aceitar passivamente tudo o que existe. Reconhecer uma condição é necessário também para transformá-la. Um projeto exige recursos e tempo; uma relação depende de duas pessoas; uma perda não se desfaz pela intensidade com que desejamos revertê-la.

Em nossa vida cotidiana, podemos compreender um limite intelectualmente e continuar lutando contra ele afetivamente. Saber que alguém tem o direito de dizer não não impede que esse não nos fira. Reconhecer o fim de uma relação não elimina de imediato a esperança de retomá-la.

Há um trabalho psíquico entre saber de um fato e conseguir reorganizar a vida a partir dele.

Por que admitir um erro pode doer tanto?

Às vezes, uma discussão deixa de tratar do que ocorreu e passa a decidir quem é inteligente, digno, competente ou merecedor de amor.

Se errar significa, para alguém, tornar-se desprezível, qualquer correção pode adquirir o peso de uma ameaça. A pessoa passa a defender sua posição com uma intensidade desproporcional ao assunto, porque sente que sua própria imagem está em julgamento.

Nesse contexto, explicações sofisticadas podem servir à racionalização: argumentos plausíveis encobrem motivos ou conflitos difíceis de reconhecer. Alguém pode apresentar a própria hostilidade como mera franqueza ou justificar uma vigilância constante como expressão de cuidado.

São hipóteses que precisam ser examinadas em cada história. A firmeza de uma posição, isoladamente, não revela sua função psíquica. O que merece atenção é a impossibilidade de interrogá-la, mesmo quando surgem elementos relevantes em sentido contrário.

A independência intelectual exige abertura à revisão

O encontro entre a frase de Rand e a psicanálise pode ser construído como uma tensão, preservando as diferenças entre essas perspectivas. A responsabilidade pelo próprio julgamento permanece; a transparência desse julgamento para quem o faz passa a ser interrogada.

Discordar de uma maioria pode ser necessário. Escutar uma objeção também. A independência intelectual exige critérios que permitam distinguir uma posição fundamentada de uma certeza mantida pela necessidade de vencer.

Vale perguntar quais elementos sustentam nossa conclusão, o que poderia nos levar a revê-la e por que determinada discordância nos atinge tanto. Também convém examinar se concedemos aos argumentos contrários o mesmo cuidado que dedicamos àqueles que nos favorecem.

Essas perguntas não garantem uma resposta confortável. Podem revelar que uma explicação antiga já não dá conta da experiência.

O lugar da análise

Na análise, as certezas podem ser escutadas junto com suas contradições, repetições e efeitos na vida de quem as enuncia. A escuta analítica também exige que o profissional examine suas hipóteses e suporte revê-las.

Quando alguém repete “eu sempre sou deixado de lado”, interessa compreender os acontecimentos a que se refere, como os vive, quais vínculos estabelece e o que essa formulação reúne ou apaga de sua história.

Esse trabalho pode ampliar a liberdade para responder ao presente. A pessoa passa a ter mais condições de reconhecer uma injustiça, assumir sua participação em um conflito ou perceber que uma situação atual despertou um sofrimento antigo.

A realidade nem sempre oferece um veredito imediato. Relações humanas são complexas, e muitos acontecimentos permanecem ambíguos. Ainda assim, suas condições e consequências nos convocam a revisar o que pensamos.

Talvez uma das tarefas mais exigentes do amadurecimento seja poder reconhecer: eu tinha razões para acreditar nisso, mas agora preciso pensar de novo.

Psicanalista Alexandre Viana
Bach Foundation Registered Practitioner (BFRP)

Referências

• RAND, Ayn. Atlas Shrugged [A Revolta de Atlas]. 1957. Passagem sobre independência de julgamento reproduzida pelo Ayn Rand Institute: https://courses.aynrand.org/lexicon/independence/
• FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico. 1911. Tradução histórica consultada na edição digital: https://www.freudedition.net/en/werke/formulations-regarding-two-principles-mental-functioning/druckschrift-0

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