Convicções políticas e desamparo sob o olhar da psicanálise

Convicções políticas e desamparo. O que colocamos na imagem do adversário. Mulher ouvindo um homem em conversa à mesa. Psicanalista Alexandre Viana.

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Uma conversa entre amigos muda de tom quando alguém revela em quem pretende votar. Antes que apresente suas razões, já foi classificado: ingênuo, egoísta, alienado ou moralmente inferior. A pessoa parece desaparecer atrás de uma identidade política.

Em momentos de polarização, podemos acreditar que apenas defendemos ideias. Mas também pode estar em jogo algo mais íntimo: o lugar ao qual pertencemos, a imagem que temos de nós e a segurança que encontramos em nossas certezas.

A psicanálise permite investigar essa dimensão sem reduzir a política a um conflito individual. Sua contribuição começa por uma pergunta que precisa alcançar todos nós: como se formaram as convicções que hoje sentimos como inteiramente nossas?

Nossas convicções têm uma história

Ninguém nasce com uma filiação partidária ou um programa político pronto. Encontramos um mundo que já possui palavras, valores, hierarquias e maneiras de interpretar a realidade. Antes de avaliar propostas, convivemos com pessoas que admiramos, tememos, desejamos contrariar ou de quem precisamos receber reconhecimento.

Isso não significa que a ideologia seja simplesmente implantada de fora para dentro. O sujeito participa dessa construção: assimila influências, recusa algumas, transforma outras e revê posições ao longo da vida. Experiências de trabalho, estudo, desigualdade, proteção ou violência também oferecem razões concretas para suas escolhas.

No vocabulário psicanalítico, a identificação ajuda a compreender como incorporamos aspectos de pessoas e grupos significativos. Em Psicologia das massas e análise do eu (1921), Freud examina os vínculos afetivos que aproximam os integrantes de um grupo e sua relação com o líder. Essa perspectiva permite perceber que uma adesão coletiva envolve mais do que concordância intelectual.

Uma posição política pode preservar uma continuidade com a família. Outra pode representar uma tentativa de separação. Nenhuma dessas possibilidades pode ser presumida apenas pelo voto: a mesma escolha pode ter sentidos muito diferentes para pessoas diferentes.

Reconhecer que uma convicção tem uma história não demonstra que ela seja falsa. Sua validade também exige examinar argumentos, fatos e consequências. Compreender a origem de uma ideia não substitui esse exame.

Quando discordar parece ameaçar o pertencimento

Mudar de opinião pode custar mais do que admitir um equívoco. Em certos ambientes, significa arriscar amizades, desapontar pessoas importantes ou perder o reconhecimento do grupo.

Nessas circunstâncias, uma crítica ao candidato pode ser sentida como uma crítica à própria pessoa. A discussão deixa de se concentrar no que aconteceu e passa a envolver a defesa de quem acreditamos ser.

Podemos observar esse movimento em situações comuns. Uma informação grave é exigida como prova definitiva contra o adversário, mas relativizada quando atinge quem apoiamos. Uma pergunta vinda de dentro do grupo é recebida como traição. A dúvida, antes necessária à reflexão, passa a parecer falta de lealdade.

Esses movimentos não demonstram, por si, uma patologia. Sugerem que vale investigar quanto de nossa segurança depende de manter determinada imagem do grupo intacta.

A adesão política pode anestesiar o desamparo

Em O futuro de uma ilusão (1927), ao discutir a religião, Freud relaciona a procura de proteção à persistência do desamparo. O uso dessa questão para pensar a adesão política é uma aproximação proposta neste artigo. Na perspectiva psicanalítica, o desamparo remete à dependência inicial do ser humano e à experiência de não dispor, sozinho, dos recursos necessários para enfrentar certas ameaças. A vida adulta amplia nossa capacidade de agir, mas não elimina a vulnerabilidade nem oferece controle completo sobre o futuro.

A política pode responder a necessidades reais: organizar a vida coletiva, assegurar direitos e enfrentar problemas materiais. Ao mesmo tempo, uma adesão partidária pode adquirir a função de aliviar angústias que nenhum projeto político consegue resolver por inteiro.

É nesse sentido que podemos falar, como hipótese interpretativa, em uma “anestesia do desamparo”. A certeza de pertencer ao lado correto e a confiança em um líder podem oferecer alívio diante da complexidade e da incerteza. O problema surge quando preservar esse alívio exige deixar de reconhecer falhas, limites ou informações incômodas.

A expectativa de que alguém finalmente coloque tudo em ordem pode carregar uma promessa de proteção absoluta. Quando essa expectativa não tolera frustração, o líder precisa permanecer idealizado, e seus erros encontram justificativas sucessivas.

Essa leitura não permite afirmar que todo engajamento seja uma fuga. A participação coletiva também pode ampliar a capacidade de agir e transformar condições concretas de desamparo. O ponto é examinar quando o pertencimento favorece o pensamento e quando passa a exigir sua suspensão.

Quando o candidato oponente passa a carregar o que recusamos em nós

Além da identificação com um líder, podemos investigar outra possibilidade: a identificação projetiva dirigida ao candidato oponente. Esse é o termo técnico formulado por Melanie Klein em Notas sobre alguns mecanismos esquizoides (1946). Sua aplicação ao debate político, aqui, é uma hipótese de leitura, não uma explicação demonstrada para o comportamento de um eleitor.

Em uma apresentação inicial, podemos chamar de projeção a atribuição ao outro de sentimentos ou impulsos que temos dificuldade de reconhecer como nossos. Na identificação projetiva, essa atribuição participa de uma fantasia inconsciente: a pessoa passa a sentir que uma parte de si está no outro e a se relacionar com ele a partir disso. Pode tentar controlar ou combater no outro os impulsos que não consegue reconhecer em si. Por exemplo, alguém pode recusar a própria hostilidade e passar a tratar o interlocutor como se toda a agressividade da relação viesse dele. As formulações do conceito variam entre autores; essa distinção ajuda a leitura, mas não é uma fronteira aceita da mesma forma em toda a psicanálise.

No caso do adversário político, a hipótese seria que ele passa a carregar algo que ameaça a imagem de nós e do nosso grupo à qual estamos apegados. Um desejo de dominar, uma hostilidade ou um oportunismo difíceis de admitir podem ser localizados exclusivamente naquele candidato. Assim, condená-lo pode também ajudar a manter distante a pergunta sobre nossa participação em atitudes semelhantes.

Isso não quer dizer que a pessoa secretamente deseje ser o candidato que rejeita. Também não exige que ela e o candidato tenham o mesmo comportamento. O ponto é a possível função da imagem do oponente: concentrar atitudes que a pessoa não admite em si ou em seu grupo, permitindo que o próprio lado continue parecendo inteiramente correto.

Imagine alguém que condena toda tentativa de silenciar críticas por parte do adversário, mas pede a exclusão de quem questiona seu próprio grupo. A incoerência merece exame. A hipótese projetiva ganha interesse se a pessoa não consegue reconhecer sua participação nessa mesma prática e precisa enxergá-la como algo que só existe no outro. Ainda assim, um exemplo isolado não demonstra um mecanismo inconsciente.

O candidato real e a imagem construída sobre ele precisam continuar distinguíveis. Uma acusação pode corresponder a fatos e, ao mesmo tempo, adquirir um peso afetivo particular para quem a faz. Investigar esse peso não apaga uma conduta documentada. O que o político fez deve ser avaliado por evidências, contexto e consequências, e não decidido por uma interpretação da vida psíquica de seus críticos.

A imagem do inimigo nas relações do cotidiano

Alguns desenvolvimentos da identificação projetiva também examinam sua dimensão nas relações: alguém pode ser tratado de maneira que favoreça respostas próximas daquilo que já se esperava dele. Isso não é obrigatório para o conceito e não significa controlar magicamente a mente de outra pessoa.

Numa conversa, por exemplo, podemos tratar um interlocutor como incapaz de pensar, interrompê-lo e ridicularizar suas dúvidas. Se ele se irrita, sua reação passa a ser apresentada como prova de que era irracional desde o início. A maneira como foi tratado desaparece da explicação. Essa sequência pode orientar uma investigação; não autoriza diagnosticar os participantes a partir da cena.

Com um candidato distante, que nem conhece o eleitor, não há motivo para supor que a fantasia individual produza sua conduta. A hipótese incide sobretudo sobre a relação do eleitor com a imagem pública do candidato e sobre como essa imagem participa das conversas com pessoas próximas. Nem toda hostilidade, provocação ou confirmação de uma expectativa corresponde à identificação projetiva.

Ao lado disso, pode funcionar uma divisão rígida entre um lado inteiramente bom e outro inteiramente mau. Se toda ameaça parece concentrada no oponente, sua derrota pode ganhar a promessa de eliminar também o desamparo. A decepção se torna difícil de elaborar quando o próprio líder falha, pois reconhecer uma falha ameaça a proteção que sua imagem oferecia.

Essas possibilidades não tornam os projetos políticos equivalentes nem distribuem responsabilidades em partes iguais. Há diferenças reais a avaliar. A pergunta psicanalítica acrescenta outra tarefa: consigo reconhecer limites no grupo que apoio e examinar uma conduta concreta do adversário sem precisar encaixar tudo em uma imagem já pronta?

A neutralidade analítica em tempos de polarização

Essa reflexão alcança especialmente os psicanalistas. A formação não os coloca fora das identificações, dos conflitos ou da necessidade de reconhecimento. Conhecer conceitos psicanalíticos não garante perceber como eles operam em nós.

A neutralidade analítica possui diferentes formulações na história da psicanálise. Não deve ser convertida em uma obrigação universal de silêncio político. Seu sentido técnico envolve preservar a investigação do mundo psíquico do paciente sem submetê-la aos ideais e às necessidades do analista.

Em Caminhos da terapia psicanalítica (1919), Freud rejeita a pretensão de decidir o destino do paciente ou moldá-lo segundo os ideais do profissional. Esse princípio oferece uma referência importante para pensar a presença das convicções políticas na clínica.

O paciente precisa poder falar de suas escolhas, inclusive das que desagradam ao analista, sem sentir que a aceitação no tratamento depende de concordância. Se uma manifestação pública do profissional produzir medo de julgamento ou desejo de agradá-lo, seus efeitos também precisam encontrar espaço para elaboração.

Quando a exposição política do analista chega à sessão

O que o analista comunica fora do consultório também pode participar do tratamento. Uma postagem, uma conversa em ambiente social ou uma manifestação de apoio a um candidato pode chegar ao conhecimento de pacientes atuais e de pessoas que ainda consideram procurá-lo. Uma fala na vida privada pode adquirir efeitos clínicos quando se torna conhecida pelo paciente. A separação entre os espaços não impede esses efeitos.

Ao perceber uma identificação partidária enfática do profissional, alguém pode antecipar que certas opiniões serão recebidas com desprezo. Pode omitir seu voto, suavizar uma dúvida ou evitar contar um conflito familiar para não ser associado ao grupo criticado. Uma pessoa que ainda não iniciou atendimento pode desistir de procurá-lo. São possibilidades que merecem consideração, não consequências inevitáveis de qualquer posicionamento.

O risco se torna especialmente relevante quando a manifestação ridiculariza eleitores, atribui inferioridade intelectual a quem discorda ou apresenta uma escolha política como prova de valor moral. O paciente não precisa ouvir uma censura durante a sessão para começar a selecionar o que diz. Basta imaginar que, se falar livremente, perderá o respeito de quem o escuta. Até a tentativa de agradar ao analista pode ocupar o lugar de uma investigação da própria experiência.

Por isso, não basta o profissional afirmar que sabe separar sua vida pessoal do trabalho. Sua intenção de acolher todos pode ser sincera, mas o paciente também responde à imagem que formou dele. Desconsiderar previsíveis efeitos de uma exposição partidária ostensiva pode revelar uma falha de discernimento clínico: o desejo de afirmar a própria posição pode estar recebendo mais atenção do que as condições necessárias para que o outro fale. O ponto a avaliar é a prudência do ato e sua responsabilidade clínica, e não a inteligência do profissional em termos gerais.

Essa preocupação não permite concluir que toda manifestação política prejudique uma análise. Em um estudo com 604 pacientes que se identificavam como democratas ou republicanos nos Estados Unidos, Solomonov e Barber (2018) encontraram associação entre a percepção de semelhança política e uma aliança terapêutica relatada como mais forte. Trata-se de relatos sobre psicoterapia em um contexto específico; eles não demonstram que expor posições cause benefício, nem estabelecem uma regra para a psicanálise ou para publicações em redes sociais.

A concordância também merece investigação: sentir-se próximo do analista pode facilitar a confiança, mas pode haver assuntos que o paciente evita para conservar essa afinidade. O critério clínico não é reunir pessoas que pensem como o profissional. É sustentar condições para que possam falar inclusive daquilo que desagrada, contradiz ou decepciona quem as escuta.

Antes de uma manifestação pública, cabe ao analista examinar o que pretende comunicar, como se refere a quem discorda e que efeitos sua fala pode ter sobre pacientes atuais e futuros. A análise pessoal e a supervisão podem ajudar a investigar o desejo de reconhecimento ou de pertencimento envolvido nessa exposição. Se um paciente trouxer receio de julgamento, esse receio precisa ser escutado, inclusive quando se apoia em algo que o profissional efetivamente publicou. Atribuí-lo imediatamente à resistência do paciente pode impedir que o analista reconheça a própria participação.

O cuidado com esses efeitos não exige indiferença diante da violência, da discriminação ou da falsificação de fatos. Exige avaliar como exercer a presença pública sem transformar a identidade política do analista em condição, explícita ou percebida, para ser escutado.

Escutar alguém não obriga a concordar com suas ideias. Permite compreender o sujeito sem transformar a discordância em diagnóstico.

Quando a psicanálise vira uma arma de discussão

É tentador explicar a posição do adversário por sua suposta fragilidade emocional e reservar à nossa apenas argumentos racionais. Podemos chamar sua adesão de dependência, sua indignação de projeção e sua confiança de idealização, sem examinar o que sustenta nossas próprias escolhas.

Nessa situação, a linguagem psicanalítica pode encerrar a escuta em vez de ampliá-la. O outro já está explicado antes de falar.

Uma reflexão consistente precisa admitir que também buscamos pertencimento, também nos defendemos de decepções e também podemos nos apegar a certezas para aliviar angústias. Isso não torna todas as propostas políticas equivalentes. Significa que a crítica às suas diferenças não dispensa o exame da nossa participação afetiva no debate.

Sustentar uma posição sem torná-la intocável

A polarização pode oferecer uma oportunidade de observar como reagimos ao desacordo. Conseguimos reconhecer um erro de quem apoiamos? Qual informação poderia nos levar a rever uma conclusão? O que sentimos ameaçado quando alguém próximo muda de posição?

Também podemos perguntar o que nos permite reconhecer uma prática que condenamos quando ela aparece em nosso próprio grupo. E se conseguimos ouvir a resposta sem recorrer imediatamente a uma explicação sobre a suposta inferioridade de quem discorda.

Essas perguntas não exigem abandonar convicções. Exigem que elas continuem disponíveis ao pensamento.

Uma posição refletida pode ser firme e, ainda assim, reconhecer seus limites. Pode defender valores, avaliar consequências e sustentar conflitos sem prometer a eliminação de toda incerteza.

Talvez o exercício mais exigente seja este: investigar nossas certezas com a mesma disposição com que investigamos as do outro. Reconhecer de onde viemos ajuda a perceber o que ainda escolhemos e o que continuamos repetindo para não arriscar o lugar ao qual pertencemos.

Psicanalista Alexandre Viana

Referências bibliográficas

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